Natalie Dormer Brasil
Primeira e maior fonte sobre a atriz britânica Natalie Dormer no Brasil.

Se a atuação não tivesse dado certo para Natalie Dormer, ela deveria considerar a carreira de treinar políticos na mídia e a ter habilidades sociais. A partir do momento que nos encontramos, em um hotel de luxo no centro de Londres, ela se tornou a definição de charme: calorosa, receptiva, criando um reconfortante senso de camaradagem. Meu nome é deliberadamente apimentado. Ela me faz perguntas sobre mim (raro em uma entrevista) e faz um trabalho convincente em parecer interessada nas respostas. Ela é persuasiva e eloquente sobre qualquer coisa que esteja interessada.

Hoje, ela está com sua atenção focada a Venus in Fur, a comédia de humor negro sobre sadomasoquismo de David Ives, a qual estreia em West End mais tarde este mês com ela sendo a protagonista. Ela faz um grande caso sobre isso. “Você até mesmo irá para casa e ter um sexo incrível, ou talvez acabe rompendo com seu parceiro… Tem esse surrealismo estranho e sombrio, mas ao mesmo tempo direciona para ser incrivelmente sexy e divertido… Tem argumentos Freudianos, eruditos, então se você se excita tendo seu cérebro atacado, então você se excitará. Mas se você sente excitação de uma maneira mais rudimentar e física, então acabará acontecendo também.”

Depois de mais de uma década sob os olhos do público – 12 anos desde o seu debute no filme Casanova e 10 desde o seu célebre personagem Anne Boleyn em The Tudors – ela é um dos rostos mais reconhecíveis em tela, com personagens em Game of Thrones e Jogos Vorazes. Ela é conhecida por interpretar personagens autoritários, perigosamente glamorosos, e eu meio que esperei que ela surgisse em meio a pérolas e cabelo esvoaçante; ao contrário disso, ela aparece de camiseta cinza e calças de cintura alta, suas madeixas loiras em um coque bagunçado artístico. Ela tinha acabado de dar um mergulho na piscina do hotel e estava prestes a sair para os ensaios.

 “É óbvio que o intelectual e o físico não são mutualmente exclusivos: nós somos as duas coisas, como seres humanos”, ela continua, em frente a ovos Benedict e café. “Queremos ser pessoas pensativas, diligentes e criativas com mentes empíricas, mas também queremos arrancar todas as nossas roupas, beber algum vinho, pular na água com nossos amigos e ter um momento incrível também. E a coexistência desses dois é a alegria do ser humano, certo?”

Para ter algum contexto: Venus in Fur é uma peça dentro de uma peça sobre sexo, poder e inversão de papéis, baseada na obra de 1870 Venus in Furs, do autor australiano Leopold von Sacher-Masoch, o qual o nome inspirou a palavra masoquismo. É uma intensa via-dupla: Dormer estrela como uma misteriosa atriz que aparece tarde para uma audição com o escritor-diretor interpretado por David Oakes. Patrick Marber – ou apenas “Marber”, como Dormer se refere a ele – dirige; o último trabalho juntos foi a produção dele no Young Vic de 2012, a peça After Miss Julie (“Se alguém consegue lidar com uma peça de poder sexual e política de gêneros, deveria ser o escritor de Closer”, ela diz).

Como ela acha que o público britânico irá reagir a elementos mais arriscados? “Oh, eles vão amar!”, ela ri, sem hesitação. “Nós fingimos ser fechados e corretos, mas você só precisa olhar o período Vitoriano para saber que os britânicos ficam bem animados do pescoço para baixo”. Há também elementos de “quem fez isso” estilo Agatha Christie, ela diz, misturados com os live shows de Derren Brown: pequenas pistas e gatilhos levando a um grand finale. “Os últimos vinte minutos são malucos. Fica bastante psicológico. Se nós não fizermos direito, se tornará uma coisa feita na base da intuição.”

Se ela fez bastante pesquisa sobre o mundo do S&M para a personagem? Ela joga sua cabeça para trás e gargalha. “Nenhuma!” ela exclama, fingindo choque. “Bem, andando pelo Soho pelos últimos 15 anos da minha vida…”

Quer dizer (obviamente), ela leu sobre antes…

“Nós todos lemos o livro de Von Sacher-Masoch, e me fez ficar um tanto desconfortável em alguns momentos. No mundo moderno, nós geralmente gostamos de pensar que surgimos com certas ideias, mas eles estavam falando várias dessas coisas dois, três séculos atrás – a natureza humana não mudou realmente”.

Sexismo, por exemplo: com a política de gênero do livro do século XIX transposta para um ambiente moderno, a personagem de Dormer leva o diretor ao ponto de vista das mulheres. “E então ela realmente deveria, porque ele não enxerga isso, e é por isso que é provavelmente incrivelmente relevante” – Aqui, ela acrescenta uma longa ressalva de todos os homens, enfatizando que é apenas esse indivíduo em particular. – “O jovem e liberal dramaturgo de Nova York é subconscientemente muito sexista. Definitivamente sexista, insultante, sem perceber.”

De modo similar, nos últimos anos atores tem estado bem mais ativos quanto ao preconceito na indústria cinematográfica, partindo da campanha de Geena Davis para as mulheres na mídia chegando até #OscarsSoWhite e filmes sobre a comunidade trans. “Nós estamos exatamente no meio de uma onda, de uma revolução”, Dormer diz, “de admitir nossas falhas e vocalizar os erros do passado”. Ela aponta Ed Skrein, seu co-estrela no thriller por estrear In Darkness, que em agosto surgiu nas manchetes por ter rejeitado um papel no reboot de Hellboy depois de descobrir que seu personagem sofreu whitewashing.

Ela liga de volta ao tempo em que Venus in Furs foi escrito. “No final dos anos 1800, a Europa estava em tumulto. Todos os outros países estavam tendo revoluções industriais – todas essas coisas que você e eu” (ela usa a frase “você e eu” inúmeras vezes, de modo bastante charmoso indicando que ela, atriz mundialmente famosa e antiga rainha de Westeros, e eu, uma jornalista, temos muito em comum) “aprendemos nas aulas de História no colégio. O antigo mundo sentiu como se isso estivesse escapando por entre seus dedos: o novo mundo de trens a vapor e impressoras de impressão rápidas e eletricidade – isso foi assustador, e eu acho que os fizeram ter uma autoanalise. ”

Os paralelos modernos são claros, ela argumenta: nos estamos em uma próxima revolução tecnológica. “Eu sinto como em uma década estaremos olhando para trás e dizendo: “Minha nossa, as placas tectônicas da sociedade, todas as coisas que demos por garantidas nos últimos 100 anos – liberalismo, evolução de Whiggish, que tudo vai melhorar lentamente – foi tudo atirado na água.” Dormer, que antes de atuar estava planejando estudar História em Cambridge, está se aquecendo, falando no meu Dictaphone com um senso de propósito.

“Nós devemos ser diligentes: não é um fato consumado. Você precisa defender gêneros políticos, você precisa defender a democracia, meu Deus.” Ela raivosamente espeta uma fatia de muffin. “Se você olhar a história, nada acontece de maneira arbitrária. Trump e Bexit são a reação a uma porção de medos e preocupações genuínas de um punhado de pessoas. Eu acredito que as pessoas são incrivelmente ansiosas. Nós vivemos um momento de ansiedade. Porque nós estamos sempre ligados a essas coisas agora” – ela usa um dedo acusatório no meu smartphone, seguindo uma discussão sobre a ansiedade nas crianças, a obsessão das pessoas pelo perfil, o constante bombardeamento de más notícias.

“As pessoas estão tentando e procurando por uma cura para tudo, e se eles veem algo eles acham que isso vai resolver todos os problemas” – ela estala os dedos – “eles se agarram a isso. A verdade é que esses problemas são muito mais complexos que isso”. Ela usa a saúde como uma analogia: você deve ser desconfiado se alguém diz que uma pílula irá fazer você mais saudável. É sobre a forma que você se alimenta, o quanto se exercita, dando a si mesmo um momento de descanso. “Mas no mundo moderno estamos procurando pela pílula”.

Dormer não se arrepende de não ter estudado História na universidade (“Eu não tenho 100% de certeza que acabaria fazendo isso”); ela gosta de levar o assunto aos espectadores de forma dramática. Tanto Jogos Vorazes quanto Game of Thrones, através da fantasia, tem algumas bases do mundo moderno – violência, preconceito, tirania, disputas de poder – fornecendo escapismo que está fundamentado na realidade. “É uma boa forma de contar uma história: é como eu processo e lido com o que tem acontecido com o mundo”. Game of Thrones, em particular, é muito querido pelos políticos: Dormer uma vez foi a um restaurante em Washington e foi surpreendida por encontrar tantos ali que assistiam a série. Dormer encontrou David Cameron em um evento quando ele estava no poder e foi a primeira coisa que disse a ela. Outro fã famoso é Stormzy, que se aproximou dela durante a premiação da GQ mês passado: “Eu estava, meu Deus, isso é tão maluco, que Stormzy está vindo até mim e me pedindo para tirar uma selfie – isso é tão errado”, ela sorri.

Depois de cinco temporadas na série, ela volta ao sofá para assistir como uma fã novamente. “É uma fuga catártica para todos nós, não é, o bom e velho GoT?  Isso leva de volta ao que você e eu estávamos falando sobre o que está acontecendo com o mundo. A imprevisibilidade de Game of Thrones é definitivamente reflexiva sobre os últimos cinco anos”. Nesse ponto, como alguém que já interpretou a companheira de diversos homens poderosos, ligeiramente desarticulados – Henry VIII, o tirânico rei Joffrey – como ela acha que Melania Trump está se saindo como primeira dama? Ela sorri, tal qual uma esfinge, e torce a cabeça para um lado. “Ah, eu não vou comentar sobre isso, Kathryn,” ela diz calmamente. Eu tento novamente – Joffrey a lembra de algum político? –, mas ela é muito sagaz para cair nessa.

Eu mudo de técnica e vou para algo que deveria ser menos inflamável: o seu corte de cabelo em Jogos Vorazes, onde ela raspou metade de sua cabeça para o papel da guerreira rebelde Cressida. Ela fala como foi libertador como atriz assumir uma nova identidade, entretanto ela foi tratada de forma diferente nas ruas. Ela começa a dizer “Para mim, feminismo…” mas a palavra a faz pausar, instigando outra linha de raciocínio. “Sendo igual ou igualitário, seja qual for a semântica que você preferir… Eu estava na Tanzânia há algumas semanas com o Plan International, que apoiam um grupo de defesa para proibir o casamento infantil e acho que às vezes as mulheres ocidentais tomam certas coisas por garantido. Sentados ao lado de pequenas meninas na África que literalmente pertencem ao pai ou ao marido, realmente me fizeram perceber que há tantos lugares onde os princípios ainda não são conquistados.”

Ela retoma a questão. “Nós estamos tão obcecados com a estética, definindo pessoas por como elas aparentam, ou escolhas que tomam.” Ela de repente parece exausta. “Nós deveríamos todos nos apoiar mais frequentemente, e parar de perguntar “Para qual universidade você vai?”, “Quantos filhos você tem?”, “Quão altos são seus saltos?”, “Você tem alguma rede social?””. Ela respira fundo. “Isso levou realmente um longo tempo para chegarmos a esse ponto, então nós podemos colocar nossas prioridades em ordem? Desculpe, aí está, se você procurava por um discurso inflamado feminista, aqui está”. E não acabou. “E abrace os homens. Nós precisamos do apoio de nossos homens que apoiam o feminismo, não os repreenda. Vamos começar a cuidar uns dos outros.”

Uma maneira de Dormer de lutar pela igualdade de gênero é procurar e criar personagens femininas interessantes e completas. Desde 2009, ela esteve co-escrevendo o thriller In Darkness com o seu noivo, o diretor Anthony Byrne. “Isso foi antes de Girl Withe the Dragon Tatto, antes de Cisne Negro, antes dessa revolução maravilhosa que estamos tendo de anti-heróis femininos”, ela diz. Pronto para ser lançado ano que vem, é inspirado no drama de Hitchcock e Scandi, e centrado na musicista cega que pensa ter escutado um assassinato no apartamento de cima. Inicialmente, o perfil de Dormer não era grande o suficiente para interpretar a protagonista, mas depois de Thrones e Jogos Vorazes, se tornou financeiramente viável. “Eu estava pronta para entregar a pesquisa” – ela imita uma pasta de pelo menos três centímetros de espessura – “para a atriz e dizer: “Ela é sua agora”. Maravilhosamente, eu não precisava fazer isso”.

Como foi o processo de escrever um roteiro com o seu parceiro? Ela sorri maliciosamente. “Eu não aconselharia se você estava tendo um período instável em seu relacionamento.” Uma vez no set, quando eles puderam assumir seus papeis de diretor e atriz, as coisas estavam bem, ela diz, mas “a sala de escrita foi mais difícil, porque nós estávamos 50/50, parceiros nivelados, e sim, foi tenso, eu não acho que algum de nós irá…” Ela ri nervosamente e se afasta. “Chegou ao ponto onde eu tive que dar um passo para trás, dando a ele autonomia para a gravação e corte, porque é isso que um diretor faz. Então eu tive que respeitá-lo, o que foi uma boa experiência de construção de personagem para mim”.

Após Venus in Fur, ela estará na “sombrio, divertido, surreal” minissérie da Amazon, Picnic at Hanging Rock, no drama pandêmico Paciente Zero juntamente com Matt Smith, e The Professor and the Madman, um filme sobre o making of do Dicionário Inglês Oxford estrelando Mel Gibson e Sean Penn. Como foi filmar com esses dois? “Ah cara – isso é completamente uma outra entrevista”.

Quando ela não está atuando ou escrevendo personagens para as telas, ela gosta de correr – ela participou duas vezes da maratona de Londres – para ajudá-la a examinar os pensamentos (enquanto ela escuta Stormzy ou Rihanna ou Queens of the Stone Age) ou pratica yoga, para clarear a mente. “Eu acho os dois bastante terapêuticos, tanto para minha mente quanto para meu corpo. São tipos diferentes de meditação”. Aos 35, ela encontrou uma maior tolerância e um amor próprio que seu eu de 20 anos. “A ansiedade não é tão potente, porque você percebe que não pode ser um super-humano, e tentar ser fará apenas se sentir miserável. Aproveite se importar com você mesmo: seja mais receptivo com suas falhas, e silenciosamente, consistentemente, construtivamente, tente trabalhar nelas”.

“Para mim, chegar a metade dos meus 30 tem sido uma experiência tranquilizadora. Eu senti uma pausa, meio que recupero a respiração, tornando um: “Oh, OK, então, todas aquelas coisas que aquele enfurecido, desafiador, esperançoso e auto-berrante de 18 anos queria alcançar – chegamos a um bom lugar””.

 

Fonte: theguardian.com

Tradução e Adaptação: Equipe Natalie Dormer Brasil, por favor, não reproduza sem os devidos créditos.

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